Artigo: Utopias Iluministas e Comunhões Conservadoras


Utopias iluministas e comunhões conservadoras.
Edgard Leite 
Publicado em Política Democrática no.28.
As transformações ocorridas no Ocidente – e no mundo – após as grandes revoluções do século XVIII são amplas e profundas. Os pressupostos de realidade que as fundamentam, por exemplo uma nova concepção de ser humano - que engendra uma nova ontologia, plural e objetiva- , não são fáceis de serem negados. Como há muito apontaram Lukács e Heller, o ser renascentista prefigurava essa transformação fundamental do ser, que deu origem à contemporaneidade. Um ser que se legitima a partir do trabalho e da objetividade transformadora do mundo.
Não escapava aos pensadores iluministas do século XVIII a intuição de que a humanidade, isto é, como entenderemos a partir do século XIX, o homo sapiens, a espécie humana, deveria ser entendida em uma perspectiva quantitativa, concreta e real. Que a liberdade deixava de ser uma experiência espiritual e subjetiva e passava a ser material e objetiva, emergindo da propriedade do ser de seu próprio corpo. Que o direito de propriedade não emanava do Rei, ou de Deus, mas do efetivo exercício de pleno controle do corpo – que podia, ou não, ser expressão de um Deus, mas de um Deus que passava, a partir de Espinosa, a ser entendido como substância ou natureza. Cognoscível pela geometria, ou pela ciência quantificadora. A liberdade, a propriedade do corpo e de tudo aquilo que o corpo produzia através do trabalho, isto é, idéias, falas, mercadorias, deveria ser garantida através da lei.
Os fundamentos das duas grandes revoluções, a americana e a francesa, estão solidamente repousadas nesse princípio. Emancipacionista, essencialmente. A existência de uma dimensão econômica fundamental nesse pensamento tornou-se claro para os pensadores de então. Adam Smith, por exemplo. E suas implicações maiores, históricas, foram depois expostas por Marx.
O mundo que emergiu então, e que continua emergindo, é muito complexo. É um mundo de emancipações. Emancipação do conhecimento de formas arcaicas de controle e ignorância. Do ser individual de mecanismos de controle subjetivos e metafísicos. Dos diferentes setores sociais e étnicos outrora submetidos à hierarquia de classificações subjetivas e qualitativas: judeus, ciganos, negros. Das amarras das milenares formas de divisão sexual do trabalho: emancipação da mulher, emancipação dos homens de seus papéis tidos por naturais, emancipação das crianças de sua posição qualitativamente subordinada. Emancipação das inclinações afetivas e sexuais das condenações ignorantes sobre a complexa natureza do ser. Emancipação dos trabalhadores.
Todos esses movimentos são plurais e ocasionam e ocasionaram reações diversas no Ocidente. Geraram entusiasmos absolutos e reações violentas. Talvez por isso Walter Benjamim visse a modernidade como catástrofe. No entanto, em que pese todas as tentativas de barrar seu aprofundamento ou de limitar seu alcance, avançam de forma às vezes confusa, mas persistente ao longo dos últimos séculos. Todos os grandes movimentos no sentido de controlá-lo, ou de sufocá-lo, são derrotados. Em grande medida porque tais transformações caminham junto com o conhecimento e propiciaram o período de maior crescimento econômico da história, o maior crescimento demográfico proporcional de todos os tempos e a maior ampliação das expectativas de vida que se tem notícia.
As suas contradições, é claro, são imensas, pois o modelo concentra capital em dimensões absurdas. O grau de extração de riquezas do mundo natural também cresce em dimensões geométricas, colocando desafios para a preservação do meio no qual o homem vive. Mas sua solidez intelectual e existencial é imensa. De forma gradual submete aos poucos todas as sociedades, as destrói ou as força a adaptações.
Desde o século XVI civilizações milenares desapareceram ou se submeteram aos poucos aos seus movimentos. Depois da II Guerra Mundial, não há, de fato, qualquer país que não se veja inserido de uma forma ou de outra nos seus paradigmas políticos ou econômicos, e as declarações das revoluções de 1776 e 1789 foram adaptadas e transfiguradas na Declaração Universal dos Direitos Humanos e na Carta das Nações Unidas, que todos reconheceram (voluntaria ou forçadamente) como padrões centrais morais e ideológicos da ordem internacional. Mesmo que discordem de suas perspectivas. O líder líbio Muamar Kadaffi, por exemplo, rasgou a carta da ONU no seu discurso à Assembléia Geral, em 2009. Mas o fez lá, e seu direito de fazê-lo foi garantido pela mesma carta. Além do mais, não consta que tenha saído da ONU ou recusado a beneficiar-se dos diversos mecanismos multilaterais que sob ela foram criados nas últimas décadas.
As sociedades e as culturas que não compartilharam da realidade histórica que engendrou essas transformações foram, de fato, pegas de surpresa por elas. E tem todos os motivos para reagir. O projeto iluminista destrói as relações tradicionais entre setores sociais, entre gêneros e altera a natureza e funcionamento das famílias. E das economias. Os seus efeitos sobre ordens que tem milênios de continuidade são portanto revolucionários.
Quando assistimos o lento colapso da Igreja Católica nos últimos séculos, por exemplo, ou a perplexidade crescente das lideranças religiosas diversas no Ocidente depois das revoluções, podemos perceber que formas qualitativas e metafísicas anteriores estão em permanente crise. A emancipação do indivíduo, e a emergência do ser potente, explicam em parte isso. Novas e livres especulações e experiências espirituais também. Mas para os povos, culturas e civilizações que não viveram essa realidade de transformação, o modelo iluminista nem sempre aparece como libertador, mas como força externa destruidora. Tanto predatória, do ponto de vista econômico, na medida em que esse sistema emerge no decorrer de um processo de expansão de poder, como também como aniquiladora do ponto de vista cultural. A natureza desse conflito compõe grande parte da história dos últimos cinco séculos.
Nesse momento vivemos um dos inumeráveis desdobramentos dessa complexa expansão, com todas suas contradições. Parece claro que cada vez menos povos tem condições de opor-se à marcha avassaladora desse processo. Os muçulmanos, tentam. Os latino-americanos, ainda esboçam alguma tentativa. Os chineses dão alguns passos, nada tímidos, na sua direção. Hindus o entendem perfeitamente. Russos se adequam ao seu modelo geral, depois de tentar, por décadas, limitar suas implicações, ou reafirmar um aspecto do seu desenvolvimento, que é a emancipação do trabalho. E, talvez, nessa limitação, estivesse a fragilidade que afinal demonstraram.
A transferência de riquezas que acompanha o desenvolvimento de tal processo fornece elementos concretos para reações. Mas nelas, como a história mostra, se misturam também reações conservadoras. Às vezes determinantes. O problema, para certos grupos locais, não está na transferência de riquezas, mas sim na emancipação que esta eventualmente engendra. Assim, os ayatolás, no Irã, denunciam o capitalismo em nome de Deus, e não em nome das forças que eventualmente são as beneficiadas pela emancipação e que talvez fossem prejudicadas pelo capital internacional. O caráter conservador das reações contra a modernização iluminista escapa às vezes aos modernos intérpretes das teorias imperialistas, que não conseguem, ou não querem, avaliar o processo de expansão do Ocidente sobre o mundo em seu caráter multifacetado.
A defesa dos valores culturais alternativos, igualmente, esbarra na realidade de que os princípios que estruturam a saúde do ser no Ocidente, ou lançam os fundamentos da utopia iluminista, que é também a utopia socialista, estruturam-se sobre diferentes graus de satisfação objetiva, oriundo de avaliações quantitativas, que em todas as esferas convidam à ruptura com formas arcaicas de entendimento do mundo. Inclusive com relações familiares limitadoras da livre expansão do ser. Não é o direito tradicional de colocar a burka que está em discussão, mas o conforto afetivo e material que advém da emancipação das mulheres e como isso alivia as tensões das relações familiares como um todo. Evidentemente que isso tem um aspecto econômico e que o mundo contemporâneo emancipou as mulheres e as tornou produtoras e consumidoras, mas isso também tem um aspecto libertador que acaba, no fim, por ser o intimamente determinante. Pois permite um olhar do ser absolutamente revolucionário sobre o mundo.
A facilidade com que certa esquerda latino-americana apóia o regime iraniano só pode refletir, sob esse ponto de vista, por exemplo, uma comunhão conservadora. Porque a defesa da emancipação do trabalho não pode estar descolada de outras tantas emancipações. E sabemos bem, pela experiência soviética, que isso é assim. E gravitar uma política em torno de um regime que sustenta as limitações qualitativas hostis ao iluminismo e ao socialismo e que não aponta para a emancipação do trabalho, mas para a sua submissão qualitativa, só pode representar uma cumplicidade no mesmo grau. Pois o próprio Marx foi sensível, muitas vezes, à tese de que a Inglaterra cumpria um papel modernizador, na Índia, especificamente.
Mas qual comunhão conservadora? Em primeiro lugar, resistência à amplitude dos processos emancipadores. Resistência à tese de que os seres humanos devem universalmente se realizar. Que aquilo que são deve tornar-se acontecimento. Resistência à tese que a utopia iluminista, ou socialista, é a da realização plena da potência do ser. Isto não se traduz apenas na emancipação do trabalhador, mas na emancipação do ser humano em todas as suas dimensões. No controle político cada vez maior pelo indivíduo da realidade que o cerca. A hostilidade às forças econômicas centrais não é fundada no entendimento da complexidade de sua expansão, mas simplesmente naquilo em que ela ameaça uma visão de mundo qualitativa, limitadora e arcaica. A forma como a esquerda latino-americano se agrupa em torno do caudilhismo, do messianismo e de formas antigas de hierarquia salvífica social, a iguala à resistência fundamentalista muçulmana. Essa é uma das bases dessa estranha aliança.
A proposta de ambas as forças não é modernizadora. Mas claramente arcaizante. Não contemplam propostas objetivas de ampliação da produção e de melhoria da qualidade do trabalho ou de conhecimento e consolidação desse conhecimento através do sistema educacional. Mas apenas estabelecem uma situação de beligerância irracional que não tem condições de vitória, diga-se de passagem. Pois falta a essa comunhão conservadora a força criadora do projeto iluminista, e sua proposta é o estreitamento da vontade individual dos povos e sua submissão a grupos que, em nome de Deus, ou de nações, justificam regimes retrógrados e totalitários.
Pequenos acidentes de percurso na marcha dos pensamentos libertadores, essas pequenas comunhões conservadoras podem, no entanto, ser prejudiciais à humanidade e aos seus povos, na gravidade do desespero arcaizante que podem vir a demonstrar. O que não seria demais, aos olhos de Benjamim, que entendia a catástrofe como natural da modernidade. E, podemos acrescentar, como dinâmica intimamente entremeada no avanço das emancipações. Lutar para que a humanidade caminhe na direção da utopia, desta utopia emancipadora, implica, provavelmente, na reflexão permanente sobre a complexidade dos processos históricos e sobre a arte de optar politicamente. E na denúncia, assim parece, daqueles que contra ela conspiram. 

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